Uberização Médica: digitalizar para não desaparecer

*POR GUILHERME S. HUMMEL

Profissionais de saúde vivem um grande dilema: o que fazer quando os serviços médicos se digitalizam a passos largos, e muitos médicos que prestam esses serviços dão passos de tartaruga nessa direção? Não é mais uma questão de resistência à tecnologia digital, ou falta de tempo para se informatizar. O que vem pela frente anula esse contexto.  O que ocorre agora na função médica é uma das maiores metamorfoses competitivas da história contemporânea da prática médica. Estamos entrando em um novo aguerrido teatro da concorrência médica, onde os profissionais rápidos (que se preparam com ligeireza para usar as tecnologias digitais) se cruzam com os lerdos (que sempre deixam para depois ou nunca valorizam a digitalização como um instrumento de vantagem competitiva).

Sensores, biossensores, aplicativos, devices, nanosistemas e uma extensa manta de conectividade correm com grande velocidade na direção da função médica. Ou seja, quem desejar continuar na profissão na próxima década, e quiser manter as conquistas adquiridas, entre elas, claro, seus pacientes, prepare-se. Sua opção não é somente ser o mais competente, como sempre foi até o Século XX, seu desafio agora é ser também mais rápido, mais solícito, mais diligente e, acima de tudo, mais profícuo. As pessoas terão cada vez menos paciência para esperar por espaço na agenda dos profissionais de saúde, e serão menos fiéis a eles quando a indisponibilidade de atendimento se tornar dia a dia mais habitual. Nesse sentido, um dos grandes instrumentos para reduzir esses espaços e o seu desconforto são as tecnologias digitais. Ou seja, a mensagem para a comunidade médica está clara: digitalize-se, ou pegue a senha e vá para o final da fila.

Darren Gold, feliz proprietário de uma fábrica de caixas de papelão em Beverly Hills (EUA), sentiu um desconforto estomacal virótico. Utilizando pela primeira vez um aplicativo (Heal) chamou um médico residencial. Segundo o periódico The Wall Street Journal (WSJ), que descreveu o fato em agosto de 2015, Gold gostou tanto do atendimento que utilizou o aplicativo novamente quando seu filho de 2 anos teve febre. A empresa de atendimento Heal, que só opera através do App (mHealth), lhe cobrou US$ 99 por cada uma das duas primeiras visitas (US$ 200, se fosse para toda a família). O serviço não estava coberto por seu seguro de Saúde, mas Gold explicou que foi uma grande pechincha em comparação com o tempo que deixaria de trabalhar para se deslocar até o médico. “Agora, sempre que meu filho tem qualquer problema, ele é o primeiro a dizer: ‘pai, precisamos chamar aquele médico’”, explica Gold. Os usuários baixam o aplicativo, digitam alguns dados e informam o motivo da visita. Adicionam um cartão de crédito, e solicitam um médico de família (ou pediatra, por exemplo). Este chega entre 20 a 60 minutos.

Outra empresa, a Pager, em Nova York, disponibiliza médicos ou profissionais de enfermagem por US$ 200, no mesmo modelo utilizado pelo serviço da Uber (aplicativo que provê motoristas para “caronas cobradas”). Já é responsável pelo atendimento domiciliar de mais de 5 mil pacientes desde 2014, tendo como perfil de usuário a jovem mãe, geralmente com mais de um filho. Quando um deles apresenta algum desconforto ela apela à chamada+atendimento do Pager, evitando os custos de deslocamento e os riscos de levar os demais filhos juntos a um consultório. Trata-se de um serviço primo-irmão do Uber, que aqui chamaremos de “uberHealth”.

A Heal, com escritórios em Los Angeles, São Francisco e Orange County, na Califórnia, informa que “coloca um médico na sua casa em menos de uma hora por US$ 99”. A RetraceHealth, em Minneapolis, oferece serviços de enfermaria através de videoconferência por US$ 50, se deslocando para a residência do solicitante caso seja necessário (US$ 150). A MedZed, em Atlanta, envia uma técnica de enfermagem à casa do paciente para um exame preliminar. Após essa primeira análise, ela se conecta com um médico de plantão (através de seu laptop), e este lhe fornece, remotamente, um plano de procedimentos. Obviamente que os serviços residenciais são limitados, sendo que os médicos avaliam ou não a necessidade de internação do paciente.

O acesso à prestação de serviços médicos através da tecnologia digital está revolucionando a relação médico-paciente nos EUA. E não será diferente no resto do mundo. Na década de 30, 40% de todas as consultas médicas na América eram feitas com o profissional se dirigindo à residência do paciente. Meio século depois, a medicina residencial praticamente desapareceu (em 1980 não passava de 1%). Ficava claro para a comunidade médica que era muito mais produtivo “convidar” os pacientes a se dirigem aos consultórios médicos ou ambulatórios hospitalares, quando poderiam atender muito mais clientes por dia, sem falar na qualidade do atendimento. Todavia, no Século XXI, as coisas estão mudando novamente, principalmente para aqueles pacientes com um pouco mais de poder aquisitivo. São três fatores que detonam a mudança: (1) as tecnologias digitais; (2) os custos operacionais; e (3) a conveniência do usuário.

O jornal WSJ também relata o caso de um executivo, Kunal Merchant, de 34 anos, que também utilizou os serviços do aplicativo Pager. Com um novo filho a caminho, Merchant queria ter certeza de que ele seria um pai-saudável, embora sua curiosidade não fosse maior do que os eventuais problemas que teria ao se ausentar por horas do trabalho. Reservou uma sala no próprio escritório e agendou uma consulta via Pager. Uma enfermeira logo foi ao seu encontro com um kit para exames de glicose, pressão arterial, colesterol, IMC, etc. Em 15 minutosla não só fez os exames como lhe mostrou o laudo: “Você está muito saudável, bom trabalho”.

Na realidade, estamos entrando em um novo modelo de atendimento, algo como um “uber para cuidados de saúde”. No fundo, são redes de profissionais de saúde (enfermagem e médicos profissionais liberais) que operam através de sistemas aplicativos (Apps), compartilhando atendimento sempre que uma central de sharing lhe enderece um caso. São profissionais com experiência em casos emergenciais (primary care) que utilizam o seu tempo livre para ganhar uma remuneração adicional (ficam com metade da taxa de chamada dos provedores). “Eu amo minhas chamadas (Pager shifts), porque elas me trazem de volta a medicina real, quando era apenas eu e o paciente em sua residência”, explica Kimberly Henderson, médica de emergência do Hospital Beth Israel (NY), que trabalha para a Pager um ou dois dias por semana.

Os médicos participam da chamada economia partilhada, tal como ocorre com o Uber, no qual um sistema digital conecta passageiros a motoristas particulares, compartilhando “corridas tarifadas”. O uberHealth funciona de maneira semelhante: suporta os usuários que precisam de assistência e desejam encontrar rapidamente um profissional disponível para atendimento residencial ou remoto. Essa rede de médicos não tem qualquer vínculo empregatício com os provedores, nem qualquer relação de trabalho formal. A confiança é construída através de um cadastramento bem feito e do histórico de serviços prestados. Os médicos ficam com parte da taxa que o paciente remunera ao provedor (não podendo cobrar qualquer adicional), sendo totalmente responsáveis pelo cuidado clínico.

A tecnologia digital interfere com muito mais intensidade no trabalho dos profissionais do uberHealth, que sempre levam consigo nas visitas domiciliares analisadores portáteis para exames bioquímicos, devices para ultrassonografia, laptops e smatphones para comunicação com outros profissionais, estações móveis de videoconferência, sistemas de suporte à decisão clínica, etc. Não se trata de um “furgão” repleto de equipamentos acoplados, ou de uma ambulância de serviços emergenciais. Estamos falando de mini, micro e nano dispositivos que cabem em uma maleta comum. Esse arsenal digital está cada vez mais avançado para fazer toda a diferença na prática da medicina, principalmente no primary care.

Sensores residenciais, por exemplo, serão capazes de avisar ao filho que seu pai de 80 anos não abriu a geladeira hoje e não ingeriu os seus medicamentos. Biossensores poderão identificar que um indivíduo que mora sozinho está urinando menos do que o normal, ou que está febril, ou que sua tosse aumentou, ou que a taxa de açúcar em seu sangue está alta, ou que oxigênio no sangue está baixo, etc. Esses dados serão registrados através de um ambiente computacional em nuvem, onde algoritmos de alta performance fornecerão uma amálgama de informações clínicas que podem ser definitivas para cada indivíduo.  O mesmo rastreamento poderá chamar uma ambulância, alertar uma unidade hospitalar, informar o médico pessoal do paciente, ou, simplesmente, enviar à residência do paciente uma equipe de emergência, ou um cuidador especializado.

Alguém se esforçou demais no futebol do fim de semana, e acordou com o joelho inchado. Seu app uberHealth poderá localizar um ortopedista mais próximo de sua residência, ou simplesmente sugerir uma videoconsulta com um especialista em joelho que se encontra do outro lado país. Poderá também enviar uma equipe de emergência ou sugerir que o indivíduo entre no portal X, abra a tela Y e procure “joelho inchado”. O portal lhe fará uma série de perguntas, recomendando, por exemplo, que passe por um exame de raio X. E se nada disso for conveniente para o usuário, ele poderá tão somente acessar seu médico particular através de uma videoconsulta e receber as recomendações que lhe deem mais segurança. Qual a diferença em relação a todos os serviços de medical call center disponíveis hoje? Várias, entre elas a rapidez, a solicitude e a proficuidade do atendimento. Todavia, o mais importante benefício é que um serviço uberHealth estará a todo momento buscando para o usuário a melhor relação custo-benefício. Como o preço pelo atendimento uberizado (entre o provedor e os profissionais médicos) é fechado, não cabe qualquer tipo de leilão ou pechincha na escolha do profissional que será indicado. O modelo de economia partilhada multiplica o poder de decisão do usuário, assim como a responsabilidade vertical por sua Saúde. No final do Século XX, esse tipo de serviço era conhecido pelo neologismo “on demand”, hoje recebe inúmeras outras nomenclaturas, como, por exemplo, uberservice.

Assim como o Uber, que recebe um tsunami de reclamações dos taxistas, associações de classe, prefeituras, parlamentos, etc., as “redes de partilhamento de serviços médicos” também estão sendo atacadas por todos os flancos, e não existe qualquer possibilidade de que essa resistência seja reduzida. Até porque Saúde é algo muito sério, e envolve uma enorme cadeia de responsabilidades, sujeitas a regulações, legislações e punições nas três esferas de poder. Sem falar, é claro, das associações médicas, como o Conselho Federal de Medicina, que não deixarão passar em brancas nuvens essa monumental revolução.

Não está sendo diferente nos EUA. A Urgent Care Association of America, por exemplo, que responde pelas empresas provedoras de cuidados de urgência, já se posicionou informando que suas empresas associadas são perfeitamente capazes de fornecer esse serviço domiciliar, e ainda questiona: “O controle de qualidade deles é mais bem feito do que o nosso?”. A comunidade médica tão pouco fica indiferente, já se manifestando que esse modelo de serviço fragmenta os cuidados de Saúde, interfere na relação médico-paciente e empobrece a avaliação clínica. “Por que alguém precisaria ser visto por um médico três vezes por semana com um quadro de constipação? Não seria talvez um quadro de insuficiência cardíaca que estaria ocorrendo?”, explica Robert Wergin, presidente da Academia Americana de Médicos de Família (American Academy of Family Physicians). Uma coisa já está clara, se haverá resistência (e deve haver) também haverá um enorme poder de demanda, fazendo com que cada médico deva preparar desde já sua plataforma de economia partilhada. Da mesma forma que um indivíduo recebe hoje os resultados de seu teste diagnóstico-laboratorial em seu computador (antes do médico), o que seria uma heresia há duas décadas, os pacientes utilizarão cada vez mais as tecnologias digitais para orquestrar a sua Saúde.

Caren Misky, enfermeira da rede True North, de Denver, explicou ao WSJ que recentemente respondeu a uma chamada partilhada, em que um doente com Alzheimer havia caído e cortado a cabeça. Ela foi capaz de suturar seu ferimento na mesa da cozinha do casal. “Sua esposa disse que a última vez que isso ocorreu, eles passaram oito horas na sala de emergência e tiveram de pagar US$ 10 mil”, explica Misky. Outro médico, que se engajou no modelo uberHealth, o Dr. Janani Krishnaswami, vai mais além, como explicou ao jornal The New York Times: “Saúde realmente começa em casa”, explicou ele. Depois de ser chamado em seu iPhone para um caso, relatou como o atendimento domiciliar é importante: “Ao visitar alguém, e perceber onde vive, eu posso identificar o seu cotidiano, o que está comendo e como sua família está vivendo. Eu posso ficar o tempo necessário com ele, que é uma coisa cada vez mais difícil de fazer em nosso atual sistema médico”.

Aqueles que desejam uma consulta, mas não necessariamente precisam de um médico ou enfermeiro em sua casa, já possuem uma série de novos serviços capazes de realizar um teleatendimento virtual (teleconsulta). A American Telemedicine Association estima que quase um milhão de pessoas já estejam “vendo” um médico via webcam em 2015 (uma das maiores seguradoras dos EUA, a United HealthCare, anunciou este ano planos para cobrir visitas médicas baseadas em videoconferência). Outra organização, a Doctor on Demand, um dos aplicativos mais populares nessa área (apoiado pelo Google), oferece acesso a 1.400 médicos (board-certified physicians). Por US$ 40 um médico pode ser consultado através de videoconsulta, sendo que o aplicativo já foi baixado mais de um milhão de vezes desde que foi introduzido no final de 2013 (a empresa recentemente disponibilizou consultas com psicólogos via webcam – US$ 50 por 25 minutos ou US$ 95 por 50 minutos).

Como no caso do Uber, a ineficiência do setor (serviços de transporte público e ou de táxis) alavanca os serviços digitais. O tempo médio de espera por uma consulta nos EUA é de 20 dias, sem falar nos custos. O Doctor on Demand jura que consegue diagnosticar e tratar 95% das pessoas que os chamam, sendo que os demais 5% são encaminhados para especialistas. O serviço American Well oferece consultas médicas on-line por US$ 49, e o aplicativo Spruce se diferencia oferecendo videoconsultas para problemas dermatológicos, como picadas de insetos ou erupções cutâneas. O HealthTap, outro aplicativo, permite que os usuários façam perguntas aos médicos em seu site (chat-video on-line) por US$ 99 ao mês, sendo que o aplicativo Maven foca a saúde das mulheres, incluindo questões relacionadas à fertilidade, gravidez e pós-parto. Todos os contatos são feitos através de webcam, com valor de consulta a partir de US$ 18.

Como sempre, tudo é muito novo nesse mercado. Ainda existem lacunas a serem preenchidas, falhas em alguns modelos de negócio, soluções de segurança e privacidade ainda inconsistentes, regulações absolutamente necessárias e, principalmente, uma enorme barreira cultural a ser transposta. No caso da comunidade médica, as resistências culturais e corporativas são colossais. Mas, como já está ocorrendo com o serviço Uber de transporte particular remunerado, o mesmo acontecerá com o uberHealth. As mesmas reações contrárias se multiplicaram com a entrada do Netflix no mercado, que, simultaneamente, vem desestruturando o negócio de três ícones do entretenimento televisivo: (1) as redes abertas de TV, (2) as redes de cable tv, e (3) as locadoras de DVD, sendo que essa revolução está ocorrendo a menos de três anos. Entre acusações e embates judiciais, o resultado é que os mercados atingidos estão sendo obrigados a se reinventar. Não é diferente com o WhatsApp, que saiu como um aplicativo para troca de mensagens e passou a realizar chamadas de voz sem custoconcorrendo diretamente (e pesadamente) com as Operadoras de Telecom.

Muitas das tecnologias digitais são disruptivas, com lastro em inovações não menos disruptivas. Não se trata somente de inovações evolucionárias ou revolucionárias. Estamos diante de inovações que irrompem o mercado, desarticulam o status natural (orgânico) de comando e governança, transformam crenças e culturas, alteram modelos de remuneração e, não poucas vezes, transgridem e subvertem setores inteiros de negócios. Ou será diferente do que ocorre entre o varejo de livros e a Amazon (eBook)?

Ao contrário do que se pensa, o poder disruptivo das tecnologias não é meramente destruidor, mas, acima de tudo, revitalizador. As tecnologias utilitaristas do Século XXI, principalmente na área da Saúde, são regeneradoras e estão impulsionando a prática médica a níveis nunca antes imaginados. É isso que a comunidade médica precisará entender, aceitar e praticar.

 


Guilherme S. Hummel

É consultor, pesquisador e Head Mentor do eHealth Mentor Institute (EMI). Autor dos livros: “eHealth – O Iluminismo Digital chega a Saúde”; “ePatient – A Odisséia Digital do Paciente em Busca da Saúde”, “eDoctor – A Divina Comédia do Médico e a Tecnologia” e “SUS encontra o NHS”. www.ehealthmentorinstitute.com.br

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